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Bestas e o papado: uma visão histórica

Publicada em: 20/05/2025 15:27 - Artigo

O que autores historicamente enxergavam em relação à simbologia do papado e das bestas, sobretudo as descritas em Daniel e Apocalipse.


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Vaticano, sede do papado e da Igreja Católica Apostólica Romana. (Foto: Unsplash)

A instituição conhecida como papado, cuja sede se encontra no Estado do Vaticano desde 1929, é historicamente objeto de muitas análises no mundo religioso. Com a recente nomeação de um novo papa Leão XIV, algumas ideias voltam a ser propagadas e comentadas em relação ao significado profético bíblico do papado.

Uma das associações mais comuns do papado - ao menos dentro da linha de interpretação profética conhecida como historicista - é com as bestas citadas nos capítulos 13 e 17 do livro do Apocalipse. Mas de onde vem essa ideia?

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Bestas e reinos

Primeiramente, um importante conceito a ser compreendido no texto bíblico é o de besta. O teólogo Vanderlei Dorneles explica que o termo besta (do grego theríon e chay do hebraico) pode indicar animais ou feras selvagens, sobretudo no Antigo Testamento. “No entanto, no Antigo Testamento grego, a palavra theríon também é usada como metáfora para representar os inimigos políticos de Israel e Judá, como em Ezequiel 34”[1], comenta.

A ideia é, portanto, que tais bestas são reinos que, de alguma maneira, opõem-se a Deus e Seu povo. Diogo Cavalcanti diz que “feras passam a representar nações estrangeiras destruidoras que devoram (Oseias 8:8), rapinam (Ezequiel 34:25) e destroem a terra à espada, deixando-a assolada (Ezequiel 14:15), também como uma maldição da aliança”.[2]

Gregory Beale, professor de Teologia e ministro ordenado da Igreja Presbiteriana Ortodoxa, segue o mesmo raciocínio. Em seu comentário sobre Apocalipse 13, ele observa que “sem exceção, a imagem do monstro marinho é usada por todo o AT para representar reinos ímpios que perseguem o povo de Deus. O mesmo simbolismo de chifres e cabeças do livro de Daniel, aplicado ao dragão em 12:3-4, é aplicado aqui (Apocalipse 13) a outra besta do mar para descrever o subordinado terreno do dragão”.[3]

Visões históricas sobre o papado

Vimos que bestas podem ser reinos e não meramente uma ideia abstrata do mal. Em termos de identificação histórica dessas bestas, duas interpretações se destacam. A primeira sustenta que se trata do Império Romano em sua fase opressora e hostil aos cristãos do primeiro século.

Por razões de espaço, vamos nos deter na leitura historicista que o alcance dessa imagem além da Roma imperial ou pagã.

Voltemos, pois, à história e à maneira como alguns antigos intérpretes cristãos de profecias bíblicas enxergavam o assunto (sem pretensão de esgotá-lo). Martinho Lutero (1483-1546), um dos conhecidos reformadores protestantes, tratou do tema em diversas obras, inclusive no panfleto de 1545 Wider das Papsttum zu Rom, vom Teufel gestiftet (Contra o Papado de Roma, fundado pelo Diabo). Ali, ele menciona o papado como a segunda besta que “parece cordeiro, mas fala como dragão”.

O reformador inglês anglicano John Wesley (1703-1791 publicou em 1755 seus Comentários sobre o Novo Testamento.  Ao analisar Apocalipse 13, o precursor do movimento metodista entende o mar como a Europa medieval densamente povoada, cenário no qual a besta deve ser identificada. A seu ver, “esta besta é o papado romano, como chegou a um ponto há seiscentos anos, está agora, e estará por algum tempo mais”.[4] Destaca, ainda, o caráter híbrido da besta, “um poder não meramente espiritual ou eclesiástico, nem meramente secular ou político, mas uma mistura de ambos”.[5]

O clérigo inglês e anglicano Joseph Mede (1586-1639) compartilha perspectiva semelhante. Em Clavis Apocalyptica (1643), vertida para o inglês como A Key to the Apocalypse, Discovered and Demonstarated from the Internal and Inserted Characters of the Visions), Mede defende que “a besta da terra era o pontífice romano, ou seja, o papa. Ele comenta que “a besta de dois chifres, ou falso profeta, é o pontífice romano, com o seu clero, tendo dois chifres como o Cordeiro, de cujo poder de ligar e desligar na terra ele se gaba de ser o vigário, mas proferindo idolatrias e massacres dos santos como um dragão. Pois esta besta foi a autora e fundadora daquela besta de dez chifres, que supriu o lugar do dragão em tirania e blasfémias, sob a marca da profissão cristã”.[6]

Poder religioso e secular

O teólogo metodista Adam Clarke (1762-1832), em The New Testament of our Lord and saviour Jesus Christ (1846), também associa o que chama de “império espiritual latino” às bestas de Apocalipse 13. Ele vê na primeira besta um braço secular e político que protege a igreja de Roma. Já a segunda besta, para Clarke, seria o braço religioso e doutrinário, ou seja, o papado, que dita normas ao mundo latino, o que ele considerava a imagem da besta.

O protestante não conformista irlandês e historicista, Henry Grattan Guinness (1835-1910), deu uma contribuição sobre o assunto na obra Romanism and the reformation, (1887). Comparando Daniel e Apocalipse, concluiu que a besta do mar é o papado por uma série de características comuns, incluindo o período de 1.260 anos de perseguição na época medieval. Guinness registra que “já chamamos a vossa atenção para o facto de que o papado é um poder complexo, e requer símbolos complexos para a sua prefiguração. É ao mesmo tempo um poder secular e eclesiástico; e o poder eclesiástico arrogou-se o direito de criar o secular, ou de o dotar de autoridade divina, e usou as energias do poder secular na prossecução dos seus próprios fins profanos”.[7]

Ainda poderiam ser citados outros nomes que fizeram estudos muito parecidos e tiveram conclusões igualmente semelhantes como: o reverendo presbiteriano da Igreja da Escócia Alexander Keith (1791-1880); o teólogo inglês anglicano Edward Bishop Elliott (1793-1875) e o teólogo norte-americano presbiteriano Albert Barnes (1798-1870).

Historicismo adventista

No caso do Adventismo do Sétimo Dia, a visão das bestas como reinos e uma delas (a do mar) como o papado, portanto, segue sendo assimilada e ensinada. A compreensão escatológica da Igreja Adventista do Sétimo Dia, especialmente em relação a esse assunto, é uma continuidade do que outros comentaristas historicistas já construíram ao longo de vários anos. Em seu comentário sobre Daniel e Apocalipse, de 1897, o teólogo historicista adventista Uriah Smith (1832-1903) dá uma explicação completa sobre a primeira metade do capítulo 13 do livro do Apocalipse, que identifica a besta do mar. Ele diz que “a essa besta o dragão concedeu seu torno, poder e grande autoridade. Por qual poder Roma pagã foi sucedida? Todos sabemos que foi por Roma papal...o grande fato é evidente e reconhecido por todos: a fase seguinte do império romano após sua forma pagã foi a papal”.[8]

Uma significativa diferença, no entanto, é que os Adventistas do Sétimo Dia, ao contrário da conclusão de alguns dos teólogos citados, compreendem que a besta da terra apresentada na segunda metade do capítulo 13 do livro do Apocalipse de João é mais bem caracterizada como os Estados Unidos, e não o papado. A análise leva em conta pressupostos históricos e elementos presentes na descrição do próprio texto bíblico.

As conclusões apresentadas até agora são evidentemente baseadas no estudo profundo dos textos bíblicos a partir da perspectiva historicista. Ou seja, “no historicismo, portanto, as ações divinas, as contrafações de Satanás e as respostas humanas são apresentadas numa linha contínua até a redenção final. Dessa forma, tanto o Apocalipse como Daniel parecem cumprir seu papel como livros universais, com informações relevantes para todas as eras, desde sua composição”.[9]

Instituições, não pessoas

Por fim, uma questão final merece ser esclarecida. A interpretação historicista, abraçada pelos Adventistas do Sétimo Dia, é focada na ideia de que instituições religiosas e seculares possuem um papel relevante em relação ao ensino bíblico e ao próprio cenário global. Não há, na literatura adventista, qualquer tipo de interpretação direcionada a pessoas ou grupo de pessoas, pois o entendimento é que as profecias apocalípticas não tratam de indivíduos específicos.

Um documento de junho de 2021 do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, intitulado Resposta às perguntas sobre a marca da besta, declara que a posição adventista não pode ser considerada anticatólica. O pronunciamento oficial ressalta que a profetisa e cofundadora Ellen White (1827-1915), que lidou com o tema em várias cartas e manuscritos, reconhece que os filhos de Deus estão presentes em todas as denominações, inclusive a Igreja Católica. Boa parte dos escritos de White está compilado na obra O Grande Conflito.

O documento oficial adventista acrescenta, falando do pensamento de Ellen White, que “ela entendeu que a estrutura da autoridade da Igreja Católica se opõe diretamente à Bíblia e Sua autoridade. Portanto, a interpretação de Ellen White sobre Apocalipse 13 é coerente com a teologia adventista e com a interpretação historicista das profecias de Daniel e Apocalipse”.[10]

É preciso respeitar o fato de haver diferentes pensamentos e interpretações sobre as bestas de Apocalipse e o chifre pequeno, mencionado no livro de Daniel. Existem outras maneiras de se compreender o assunto no mundo religioso. A perspectiva historicista, no entanto, é também válida como uma visão a ser conhecida e submetida ao estudo mais profundo e sincero por parte do pesquisador que deseja compreender melhor o assunto por todos os ângulos.

Vitória dos que seguem o Cordeiro

O mais importante é reconhecer que as profecias não têm como foco principal as bestas, o dragão ou os poderes do mal. O protagonismo profético é de Deus e Jesus Cristo, simbolizado muitas vezes como o Cordeiro. Quando se lê o final do versículo 10 do capítulo 13 de Apocalipse, é possível constatar que o apóstolo João foi inspirado a escrever uma nota de esperança aos fiéis a Deus, mesmo diante da hostilidade e da postura arrogante da besta do mar. O texto diz que “aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos” (Apocalipse 13:10, tradução Nova Almeida Atualizada).

O poderio das bestas pode ser intimidador e até causar medo, porém o livro do Apocalipse sempre evidencia uma vitória contundente do povo que se mantém perseverante e fiel a Deus e aos Seus ensinos. É, afinal de contas, um grupo de pessoas que “venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo diante da morte, não amaram a própria vida” (Apocalipse 12:11, tradução Nova Almeida Atualizada).

Felipe Lemos é jornalista, pós-graduado em Estudos Teológicos e editor na Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN).


Referências:

[1] DORNELES, Vanderlei. A besta de sete cabeças e seus antecedentes em textos da cultura antiga. HORIZONTE - Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, v. 15, n. 48, p. 1423–1445, 2017. 

[2] CAVALCANTI, Diogo de Araújo. O monstro leonino que surge do mar: um estudo de Daniel 7:1-4 à luz de sua relação intertextual com a Bíblia Hebraica e a literatura e iconografia do Antigo Oriente Médio. Dissertação de Mestrado, p. 121. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8158/tde-31072019-125515/pt-br.php.

[3] BEALE, G.K. Brado de vitória: um breve comentário do Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, p. 251, 2017.

[4] WESLEY, John. Wesley's Notes on the Bible. Enhanced Version. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library. Agosto de 2010, p. 550. Versão disponível em: https://www.ccel.org/ccel/wesley/notes.html.

[5] Idem.

[6] MEDE, Joseph. A Key to the Apocalypse, Discovered and Demonstrated from the Internal and Inserted Characters of the Visions. Tradução de R. Bransby Cooper. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2012. Disponível em: https://www.ccel.org/ccel/mede/key.html. Acesso em: 16 maio 2025.

[7] GUINNESS, Henry Grattan. Romanism and the Reformation: from the standpoint of prophecy. Toronto: S. R. Briggs, [1887?]. Digitalização da University of Toronto Libraries, 20 mar. 2007, p. 156. Disponível em: https://archive.org/details/romanismreformat00guinuoft. Acesso em: 18 maio 2025.

[8] SMITH, Uriah. Daniel e Apocalipse: a resposta da história para a voz da profecia. Editora dos pioneiros: março de 2020, p. 419.

[9] CAVALCANTI, Diogo. Artigo O desafio dos métodos de interpretação. Disponível em: https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/diogo.cavalcanti/o-desafio-dos-metodos-de-interpretacao/

[10] Documento Resposta às perguntas sobre a marca da besta, junho de 2021. Disponível em: https://institucional.adventistas.org/pt/documentos/resposta-as-perguntas-sobre-a-marca-da-besta/.


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